Depois de Nunes
A. Melo

a palavra 
descansa pálida 
na folha alva — 
silêncio em silêncio
Je cherche en même temps l’éternel et l’éphémère
- Georges Perec
Que silêncios
afugentam
as aves?

- João Bosco da Silva
Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da um raggio di sole:
ed è súbito sera.

Salvatore Quasimodo
à guisa de entropia
- nelson ascher
No quedará en la noche una estrella.
Jorge Luis Borges
Quelle âme est sans défaut?
Para o meu próprio poema
Wisława Szymborska

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.

Na pior das hipóteses
somente lido.

Terceira possibilidade –
embora escrito,
logo jogado no lixo.

Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.
A palavra,
Já cansada 
De ter asas,

Pousa na
Folha alva.
O que a aguarda?

- Adriano Nunes
alvoroçar o silêncio
- dirce de assis cavalcanti
a confusão prossegue 
- paulo leminski
O momento de
António Ramos Rosa

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. 0lha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
The enduring relevance of Pom Poko, 1994