Dois causos
AR
I
Certa vez, menino Júnior me ouviu dizer, por causa da situação difícil em que eu me encontrava: “Estou no olho do furacão”.
Nisso, ele me disse:
— Você sabe que o olho do furacão é onde não tem movimento, é um espaço vazio, né?
O semblante dele era de quem acabara de desconstruir um ditado popular, e ficou muito contente com a descoberta.
Estar no olho do furacão é, de fato, não estar no giro — naquele giro que depois nos cospe para longe, às vezes até a morte. Mas esse lugar não está vazio. Está cheio de ansiedade. Quem está no centro precisa tentar prever para que lado o furacão vai se mover. É uma espécie de dança caótica: ou acerto a direção e continuo no centro, ou sou levado pela espiral.
Sobreviver ao furacão, vá lá.
Ao julgamento do menino Júnior, já não sei.
II
Num outro momento, menino Júnior me disse que acreditava numa revolução próxima, na qual as minorias tomariam o poder e subjugariam a burguesia.
Eu, já de uma certa idade, perguntei se ele havia lido A Revolução dos Bichos, de Orwell.
Ele balançou a cabeça que não. Disse que tivera uma vida muito dura e pouco tempo para leitura.
Resumi o livro para ele e perguntei se queria que eu o emprestasse.
Não quis. Disse que havia entendido o que eu queria dizer e que era a mesma história de A Fuga das Galinhas.
O filme é muito bom, claro. Mas conta a história de uma revolução até ela acontecer. Termina com as galinhas livres, sem que saibamos muito bem o que farão com a liberdade. Naquela época, ainda não havia a segunda parte do filme.
A Revolução dos Bichos é mais sobre o que acontece depois: como se lida com a liberdade, como se ocupa o poder e o que se faz quando se chega a ele.
Mas preferi não explicar isso ao menino Júnior.
Achei bonito ele acreditar que os humanos — sejam porcos ou galinhas — podem mudar.