THAÍS
E Pondé, por que que você acha que essa ideia do Schumpeter, de reduzir a eleição a uma competição por votos, é tão chocante para algumas pessoas?
PONDÉ
Porque a eleição tem uma metafísica associada a ela.
THAÍS
Uma aura?
PONDÉ
Uma aura de que [a eleição] é o momento essencial da democracia, onde os eleitores escolhem seus representantes. E esses representantes vão oferecer projetos, propósitos e vão discutir com o objetivo de ganhar seu voto.
Nessa definição procedimental do
Schumpeter, ele diz: “Eu estou falando sobre o procedimento que leva X a ser soberano”. Esse procedimento é: ganhou a competição por votos.
Ah, ele era muito bom, ele tinha projetos, ele falava melhor do que os outros, ele é mais honesto. Não importa, ele não ganhou a competição por votos. Quem ganhou vai ser o soberano.
Ah, mas quem ganhou, de repente, usou, prometeu coisas absurdas, foi populista, não sei o quê. Não importa.
Quem ganhou a competição por votos é o soberano. É uma definição que vai contra as nossas melhores expectativas políticas, vai contra a nossa expectativa da racionalidade do sistema. Não é racional, é número.
THAÍS
Então o que choca é o pragmatismo atroz.