Você sabia?
Que um gato quando anda
pousa a pata traseira na memória
do passo que a pata dianteira criou?

É assim o futuro.

- Natasha Tinet
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?

- Marcelo Montenegro
Eu costumava grifar meus livros
Marcelo Montenegro

Um medo danado de nunca mais me deparar
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Desassossegos
Marcelo Montenegro

García Lorca
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro

Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul

Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade

Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade

Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou

Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem

- tatiana faia
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos

ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia

- tatiana faia
Nostalgia
Daniel Jonas

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.
Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.

- Daniel Jonas
A resistência à teoria
Daniel Jonas

Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
amadureçam
à luminosidade da palavra
dia
Perdoai, amigos, não sou nenhum animador de rua
nenhum entretém de ocasião nenhum rigoletto –
ponderai se o vosso negócio não será antes rosas
e eu providenciarei os espinhos.

- Daniel Jonas
Da morte pela manhã
Micheliny Verunschk

A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
(e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos),
Canção para Cecília: “a Meireles”
Christiane Tricerri

Cecília por que me
chegaste agora?
Ainda respiro, mas morro
lentamente.

Oh, Cecília! Por que me
chegaste agora?

Ainda canto, mas vivo
lentamente.
E já não quero caminhar,
e vens me dizer que voo!
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade

- valter hugo mãe
Não quis nunca saber se aquele que eu amava
era sincero ou não, se era nobre ou plebeu.
Amava-o porque sim, e se não me adorava
e sabia fingi-lo, que mais queria eu?

- Mercedes Blasco