the alternative is to drown in silence
- matt longabucco
Proustiano
AR

O objeto não é recuperável
pois o que foi perdido não foi apenas ele:

perdeu-se também o tempo
em que ele existiu.
Talvez fechar
uma história

seja aceitar
que ela continuará
aberta
em algum lugar.

- AR
Não quero voltar.

Quero
ter estado lá.

- AR
ele não pensa em mim

é possível

mas uma vida inteira
não precisa
de duas testemunhas

- AR
The years I've spent trying to get all the things I was told were important - that I was supposed to want! Things! Not people... or meaning. Just things.

- Tony, Seconds (1966)
the brain is a maniac organ
it puppets me

so what if this euphoria is only ephemeral
if tomorrow i find the night absconded
            with my smile
if the man i love turns over in his sleep
and becomes a hollowed out gourd
                          with a horror mask face
if every object of my intimacy becomes ash
i will still thank each marked and unnamed chemical
                   for making oblivion in my blood
dopamine mephedrone amphetamine
you bring opalescence to the meat
you make the abattoir smell sweet

- sam sax
 esta vida é uma viagem
pena eu estar
 só de passagem

paulo leminsk
no fundo, no fundo,
bem lá no fundo, a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

paulo leminski
aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
o mar
não parou
pra ser olhado
foi mar
pra tudo quanto é lado

paulo leminski
Você só fica xingando o outro, odiando o outro, achando que só você está do lado do bem.
É fanatismo.

- Luiz Felipe Pondé, Linhas Cruzadas (10/09/2026)
DEMÉTRIO MAGNOLI
Será que a hiperpolitização torna a política impotente, incapaz de realizar mudanças?

Quem primeiro falou em hiperpolitização foi Hannah Arendt, e ela se referia aos regimes totalitários, ao regime de Stalin na União Soviética, ao regime de Hitler na Alemanha nazista. O que que ela constatou? Ela constatou que a política daqueles regimes totalitários invadia todas as esferas da vida. Havia política na literatura, porque os autores tinham que se filiar a entidades de autores ligadas ao partido dirigente e partido único. Os artistas tinham que fazer o mesmo. Os esportistas tinham que se filiar e fazer parte de associações ligadas ao partido. Então, toda a vida pessoal e profissional das pessoas estava embebida de política e a política escorria por todos os poros. Isso era uma característica dos regimes totalitários.

O curioso, interessante e triste é que há algumas décadas, não começou hoje, outros movimentos de esquerda e de direita hiperpolitizam a vida. Isso começou lá nos anos 60, 70, quando surgiram as políticas do corpo, as políticas do sexo, e isso se desenvolveu com a política identitária. As políticas de negros, de mulheres, de LGBT, as políticas identitárias em geral de latinos nos Estados Unidos e ainda com as políticas aí pela direita, as políticas ligadas à religião, que é uma outra forma de política identitária. Então, partidos que passam a ser, na verdade, ligados à fé religiosa, ligados a igrejas, correntes políticas que se apoiam nas ideias religiosas. Isso acontece também, mas aí já não é Ocidente, com o fundamentalismo muçulmano.

Tudo isso faz com que a política, que nem me parece que se torne impotente, mas se torne tribalista.

LUIZ FELIPE PONDÉ:
Ele deixa claro que há autoritarismo nas políticas identitárias. Muita gente vem falando disso. Quando a política sai do lugar e toma todos os lugares, ela fica autoritária.

DEMÉTRIO MAGNOLI
Nas democracias liberais, a ideia é que a política ocupa um espaço limitado, que é aquele espaço da concorrência entre partidos basicamente durante eleições. E o resto da vida das pessoas se dá fora da política. Com a hiperpolitização, toda a vida das pessoas se dá dentro da política. E, ao dizer que se dá dentro da política, quer dizer que toda a vida das pessoas passa a ser uma concorrência pelo poder e isso produz um tribalismo permanente e contribui ou gera uma polarização política permanente, porque todas as pessoas estão, em tese, inseridas numa tribo política e a política ocupa todos os dias do ano. É muito chato.

Linhas Cruzadas (10/09/2026)

Essa história de que todo mundo participa da política é invenção da democracia moderna, nem é da ateniense.

- Luiz Felipe Pondé, Linhas Cruzadas (10/09/2026)