Manhã

Ilumino-me
de imenso
Eterno
Giuseppe Ungaretti

Entre uma flor colhida e outra ofertada
o inexprimível nada
Como não te perderia
se te amei perdidamente

- Antonio Cicero
dias escaldantes
corpo dessorado

- antoine emaz
a fala espantada
de quem sabe e cala

- lêdo ivo
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
                fora de esquema
                meu poema
inesperado

- Ferreira Gullar
meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

- antonio cicero
Não é segredo.
Somos feitos de pó, vaidade
E muito medo.

- Millôr Fernandes
Para apreciar um poema é necessário dedicar-lhe tempo.
- Antonio Cicero
celebremos
o instante           a ruína           a desmemória

carpe diem quam minimum credula postero
colhe o dia, minimamente crédula no porvir

Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe.

Horácio
Não estamos livres quase nunca porque nos encontramos numa cadeia utilitária em que parece que o sentido de todas as coisas e pessoas que se encontram no mundo, o sentido inclusive de nós mesmos, é sermos instrumentais para outras coisas e pessoas.

Nessas circunstâncias, nada e ninguém jamais vale por si, mas apenas como um meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa, e assim ad infinitum.

Há muito tempo que não saio de casa
Se soubesses a vontade que tenho de passear
no interior da tua orelha

- Jorge de Sousa Braga
XII
Paulo Henriques Britto

Confinado num corpo
de dúbia propriedade
provido de um contorno
muito bem delineado,

procura na palavra
(por mais escarnecida)
a possibilidade
de uma quase saída

rumo a um outro eu
novo do cerne à casca
ou então, faute de mieux,
a uma boa máscara.