ARAR
O que é hoje a internet? Graças ao tal do algoritmo, há um pressuposto narcísico terrível: "Eu gosto de mim", o que é um equívoco fundamental. Eu não gosto de mim. Quando eu abro o meu Spotify, o meu Netflix, o meu Prime... Eu tenho no meu iPhone a rádio do Pedro.
O pressuposto do algoritmo é que eu gosto de mim e me oferece sempre mais de mim mesmo. É a tal da bolha, a formação de mônadas incomunicáveis. Eu fico ouvindo minha rádio e acho que o mundo é eu. Eu fico vendo sempre os mesmos amigos no Instagram e no Facebook, e eu acho que o mundo é eu — o que me torna absolutamente narcísico e intolerante.
Quando eu me defrontar com alguém que não é eu, que pensa diferente, eu vou ficar chocado. Como assim você não é eu? Eu achei que o mundo inteiro fosse eu.
Pedro de Santi, Linhas Cruzadas (30/07/2026)
As pessoas estão se refugiando no diagnóstico [mental e físico] para não terem que responder às demandas sociais. O nosso narcisismo não é apenas o infantilismo; é uma defesa, é um fechamento defensivo num ambiente traumático, instável.
Pedro de Santi, Linhas Cruzadas (30/07/2026)
Há uma dinâmica narcísica, que é o imediatismo. A medicação [canetas emagrecedoras] vai ser uma forma de eu me desimplicar. Na saúde mental também. Então, não sou eu, é a doença. O narcisismo está aí: na busca pela mágica, e não pela implicação da pessoa na própria subjetividade, no próprio corpo, na própria história — porque eu não me sinto mais capaz de me implicar e produzir resultado na minha vida. É uma grande forma de impotência. Muitos usos de antidepressivos, ansiolíticos e canetas depõem para essa instantaneidade e por essa desistência de si, em última instância.
- Pedro de Santi, Linhas Cruzadas (30/07/2026)
república queer de maceió
AR
o algoritmo
distribuiu diplomas
todo mundo
letrado
em dissidência
interseccionalidade
performatividade
decolonialidade
o glossário cresce
a conversa emagrece
vinte e poucos anos
duzentos de certeza
explicando o mundo
foge do preconceito
com a disciplina
de quem já preparou o próprio
eu sei que sou lindo
padrão
os feios
para o fim da fila
depois daquele velho
white guilt
o cancelamento
virou sacramento
toda república
escolhe
quem deve
ser visto
Cartografia para um corpo sem mapa
AR
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Nenhuma dessas vozes ocupa o centro; aproximam-se, afastam-se, discordam, corrigem-se. Judith Butler permanece uma referência incontornável ao mostrar que o gênero é uma prática reiterada, não uma essência; Eve Kosofsky Sedgwick revelou como a cultura ocidental organiza seus significados em torno da oposição heterossexualidade/homossexualidade; José Esteban Muñoz pensou a experiência queer como horizonte de futuro e imaginação política, recusando a ideia de que o presente esgota as possibilidades de existência; Paul B. Preciado analisa como hormônios, medicamentos, pornografia e tecnologias moldam o corpo contemporâneo; Sara Ahmed investiga como emoções, instituições e normas orientam nossos corpos no mundo, oferecendo ferramentas fundamentais para pensar pertencimento e exclusão; Jack Halberstam propõe valorizar formas dissidentes de sucesso, tempo e masculinidade; Lee Edelman apresenta uma das críticas mais radicais ao ideal social centrado na reprodução e na figura da criança como promessa política; Michel Foucault, embora não escrevesse sob o nome "queer", tornou-se indispensável ao mostrar que a sexualidade possui uma história e é atravessada por relações de poder; Audre Lorde articulou raça, sexualidade, feminismo e poesia de forma inseparável, mostrando que as diferenças podem ser fonte de criação política; Gloria Anzaldúa transformou a ideia de fronteira — geográfica, linguística e identitária — em uma poderosa metáfora da experiência queer; bell hooks, embora não se definisse como teórica queer, influenciou profundamente o campo ao pensar amor, dominação e interseccionalidade; Adrienne Rich questionou a heterossexualidade compulsória e ampliou o alcance político da poesia; Alison Bechdel mostrou, por meio da autobiografia gráfica, como família, memória e sexualidade se entrelaçam; Maggie Nelson dissolve fronteiras entre ensaio, filosofia e autobiografia ao refletir sobre maternidade, identidade e linguagem; Leslie Feinberg tornou-se um marco na compreensão das experiências trans e da história da resistência LGBTQIA+; Dean Spade discute como instituições aparentemente neutras reproduzem desigualdades contra pessoas trans; Susan Stryker consolidou os estudos trans como campo acadêmico; Julia Serano examina criticamente a transfobia e os estereótipos de gênero; Raewyn Connell revolucionou os estudos das masculinidades ao mostrar que elas são múltiplas e hierarquizadas; Didier Eribon investiga a relação entre classe social, vergonha e homossexualidade; Édouard Louis transforma a própria trajetória em reflexão sobre violência, masculinidade e mobilidade social; Richard C. Friedman contribuiu para uma compreensão clínica da diversidade sexual distante das antigas perspectivas patologizantes; e Lisa Diamond tornou-se uma das principais pesquisadoras da fluidez da orientação sexual ao longo da vida.
Ler essas vozes em conjunto permite perceber que ser queer não significa apenas pertencer a uma sigla, mas também aprender a questionar normas que muitas vezes parecem invisíveis, imaginando formas mais amplas de existência, de afeto e de liberdade.
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