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Não vejo que o humanismo, nas suas possíveis acepções, implique necessariamente na ideia ou na crença de progresso moral ou de perfectibilidade humana.
A ideia de progresso moral vem sendo discutida na filosofia desde Platão, como, aliás, quase tudo. E, no século XIX, você tem o que talvez seja o século de ouro da crença na perfectibilidade humana e na ideia de progresso moral. Ela aparece tanto no utilitarismo do John Stuart Mill — ali seria incremental e graças à educação: o ser humano se tornaria moral e intelectualmente cada vez mais aperfeiçoado —, quanto também no marxismo.
Eu posso dizer, com tranquilidade, que o século XX foi muito cruel com as expectativas de utilitaristas e marxistas em relação à maleabilidade e à plasticidade da natureza humana. Tivemos avanços importantes no campo da moral e das relações humanas, basta mencionar a questão de gênero — as mulheres sequer votavam até a Primeira Guerra Mundial.
Mas, depois das experiências desastrosas da primeira metade do século XX, como foram o fascismo, o nazismo e as guerras mundiais, e depois desses retrocessos que nós estamos acompanhando mais recentemente, mais ligados à ascensão de uma extrema direita muito retrógrada no campo dos costumes, eu acho que fica muito difícil alimentar maiores expectativas em relação a essa noção de perfectibilidade humana.
O humanismo não depende dela. Colocar o ser humano no centro das preocupações do próprio homem e a dignidade humana como alguma coisa decisiva na nossa reflexão sobre o mundo não implica acreditar em progresso moral ou perfectibilidade humana.
- Eduardo Giannetti, Linhas Cruzadas (13/08/2026)