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   No campo de manipulação de símbolos que caracteriza o consumo, Jean Baudrillard faz do corpo "o mais belo objeto" do investimento individual e social. Desde 1970, em A sociedade de consumo, deixa claro os limites e ambiguidades da "libertação do corpo". "Sua redescoberta, escreve, após uma era milenar de puritanismo, sob o signo da liberdade física e sexual, sua inteira presença... na publicidade, na moda, na cultura de massa, ou no culto da higiene, da dietética, da terapêutica no qual é envolvido, a obsessão de juventude, de elegância, de virilidade/feminilidade, o mito do prazer que o envolve – tudo testemunha hoje que o corpo tornou-se objeto de reverência". A retórica da alma foi substituída pela do corpo sob a égide da moral do consumo. Um imperativo impõe ao indivíduo, à revelia, práticas de consumo visando aumentar o hedonismo de acordo com um jogo de marcas distintas. O corpo é movido ao título de "significante de status social". Esse processo de valorização de si, através do uso de marcas distintivas e mais eficientes do ambiente imediato, depende de uma forma sutil de controle social. O cuidado de si mesmo, inerente a esses usos, revela uma versão paradoxal do narcisismo, "radicalmente distinto, diz Baudrillard, daquele do gato ou da criança na medida em que se coloca sob o signo do valor. É um narcisismo dirigido e funcional da beleza a título da valorização e da troca dos símbolos".

BRETON, David Le. A sociologia do corpo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2012, p. 84 e 85.