CARLA VILHENA
No seu livro, O cérebro e a menopausa, você fala do neurossexismo, que por incrível que pareça, é bastante recente e serviu de base para várias teorias e criar e manter esse mito de que o cérebro das mulheres é inferior ao dos homens. Embora aqui no Brasil a gente saiba, estatisticamente, as mulheres têm muito mais anos de escolaridade, somos maioria nas universidades e que muitas, mesmo com os sintomas, encaram bravamente o mercado profissional e continuam tendo desempenho semelhante ao dos homens. No entanto, as mulheres são muito vítimas de etarismo. Os homens são considerados como tendo o auge das suas faculdades mentais na idade de 55 anos ou mais, enquanto as mulheres não conquistam, muitas vezes, cargos elevados e são consideradas inferiores ainda hoje.
Você diria, doutora, que a menopausa exerce esse papel no preconceito contra as mulheres mais velhas, especificamente no mercado de trabalho?
LISA MOSCONI
Eu diria isso. Sim, eu acho que as mulheres estão sob fogo cruzado em múltiplas perspectivas há séculos até hoje, nós sofremos etarismo e sexismo - o que eu diria que realmente se fundiu com a questão da menopausa. É lamentável, e lamentável de várias formas, porque, como você disse, um homem envelhece e consideramos isso como é considerado um bom vinho. Quanto mais velho é, mais precioso se torna. E para as mulheres, por algum motivo, isso não se aplica. Em vez disso somos consideradas como vinagre. Em algum ponto chegamos a uma data de validade, depois disso, azedamos de alguma forma - o que obviamente não é verdade. Infelizmente, o neurossexismo está nas pesquisas e culturas do mundo médico por muito tempo - que remontam a Charles Darwin, que é considerado o pai da biologia moderna. Que era misógino, declaradamente, e dizia que o cérebro das mulheres era inerentemente inferior ao dos homens. E é por isso que a neurociência realmente começou como uma disciplina que pretendia provar que ele estava certo. Portanto, o cérebro das mulheres sempre foi avaliado e estudado como não sendo tão funcional quanto o cérebro de um homem, e sendo menos capaz intelectualmente. E por muito tempo, as mulheres foram mantidas afastadas das universidades, de cargos com salários mais altos, de alta gestão - com base nessa noção de que seus cérebros simplesmente eram incapazes. E foram necessárias décadas de pesquisa e trabalho de muitos cientistas para realmente virar esse jogo e mudar a narrativa e essa discussão - só para chegarmos à menopausa, certo? Que não foi estudada ao ponto de que ainda hoje a menopausa continua sendo uma das mais subestimadas, subdiagnosticadas, subtratadas e subfinanciadas áreas da medicina. Isso ocorre porque muitas pesquisas sobre o cérebro são feitas por homens e os homens não passam pela menopausa. Portanto, há toda uma população que foi deixada de lado e mesmo em estudos que incluem mulheres e homens, nós tendemos a agrupá-los, e assim se perde estatisticamente os efeitos do sexo e do gênero, o que nos fornece informações sobre um indivíduo assexuado ou sem gênero e não nos diz nada sobre a sua própria fisiologia. Então, eu acho que é um problema cultural, de maneira geral. Há um problema na estrutura da medicina quando se trata de estudar a saúde do cérebro - que agora está mudando, com cada vez mais mulheres se manifestando e mostrando claramente que podemos lidar com a menopausa, podemos lidar com o envelhecimento, podemos lidar com várias coisas diferentes e ainda assim ter um ótimo desempenho. E agora também precisamos de pesquisas e cuidados de saúde que nos permita viver realmente o nosso melhor, não apenas na nossa juventude, mas em todas as idades e fases da vida.