ASSAAD está dormindo no sofá. Todos já foram embora. Sento-me numa poltrona a sua frente e me distraio com uma rachadura na parede. Lembro-me de Haia. Estou há tanto tempo longe de pensar em Haia que não posso sequer imaginar o motivo de sua imagem ter sido evocada para mim ao olhar para uma rachadura na parede. Quase não sei mais quem ela é. Mas penso que não foi à toa que ela apareceu em minha memória. Gostaria que Haia estivesse aqui agora. Que ela pudesse romper, assim como eu, a barreira ilusória do tempo e do espaço. O silêncio entre nós já dura muitos anos, mas sinto a sua presença, é quase física e posso tocar a ponta de seu nariz com meus lábios e sentir o aroma de mirra que o seu corpo sempre exalou nos dias quentes.
- Marcelo Maluf em A imensidão íntima dos carneiros