Auto-retrato
Maria do Carmo Ferreira

Nasci no rame-rame das abóboras.
Meu plano é horizontal. Vivo de cócoras.

Se me ergo, me espatifo. A gravidade
colou meu ser ao chão: cresço à vontade.

A crosta é dura. No corpo volumoso
a polpa é só fartura e paga o esforço

de rastejar como uma tartaruga
e refletir ao sol minha armadura.

Uma fome objetiva me devora
como a dos porcos que não comem pérolas

ou a dos pobres que não comem porcos.
Com ou sem sal, metáfora ou pletora

viro alimento no momento justo.
Ao fogo brando e lento mais me aguço.

Não sinto a tentação das ramas altas:
maracujá, chuchu, nada me exalta.

Nem mesmo a solidão das uvas verdes
quando o desdém dos homens as prescreve.

No ventre universal ocupo um espaço.
A vida faz-se em mim. Vegeto, e passo.