Dois homens e uma teoria
por AR

Quando me viram em uma relação amorosa com certa diferença de idade, algumas pessoas sentiram necessidade de me explicar a assimetria. Achei curioso. Não porque a assimetria não existisse, mas porque pareciam supor que ela lhes era visível e a nós, não.

Como se a diferença de idade, de experiência, de história ou de posição fosse algo que apenas um observador pudesse perceber. Ou pior, como se existisse um culpado na relação. Ou dois?

Mas nunca acreditei que o problema ético de uma relação pudesse ser resolvido pela simples identificação de uma diferença. As diferenças existem. Entre amantes, amigos, pais e filhos, professores e alunos, entre qualquer duas pessoas que se encontrem no mundo. Há assimetrias de idade, de desejo, de recursos, de conhecimento, de linguagem, de temperamento. Não conheço relação humana que não seja atravessada por alguma forma de desigualdade.

O que me interessa não é apenas a existência da assimetria e o que fazemos com ela: é ser julgado sem saber se temos consciência dela.

Nós sabemos. E nos perguntamos: Pode ser questionada? Pode ser renegociada? Há espaço para dizer não? Há espaço para mudar de ideia? Há respeito pela autonomia de cada um?

Uma relação não se torna ética porque é perfeitamente simétrica. Tampouco se torna abusiva apenas porque contém uma diferença visível. Há relações aparentemente equilibradas que são feitas de manipulação e silêncio. E há relações atravessadas por diferenças importantes que são sustentadas por diálogo, consciência, cuidado e consentimento.

Talvez por isso eu tenha desconfiado quando tentaram resumir uma relação concreta a uma única palavra. As palavras são necessárias. Os conceitos também. Mas às vezes eles chegam antes da escuta. E quando isso acontece, deixam de ser instrumentos de compreensão e passam a funcionar como sentenças.

A assimetria existe. Sempre existirá. A questão nunca foi essa. A questão é como duas pessoas a atravessam juntas.