THAÍS
Carol, você falou que existe uma espécie de hiperfoco na autoestima e um hipofoco, digamos assim, nas relações. É outra coisa que eu achei interessante e queria saber se isso, por exemplo, tem a ver com uma certa antitendência do amor nas redes. Por exemplo, a gente percebe que tem algumas expressões do tipo “apego evitativo” ou então aquele “apego grudento”, “love bombing”, o que a gente achava que era entrega, aquela ideia de amor que você se doa, que você se abandona. Isso tudo parece que é inconveniente, não é legal e não é bonito e não é moderno, não pega bem. O amor virou assim uma antitendência?
CAROL
Eu acho que sim, num mundo onde a gente tá vivendo um mito das relações leves. Então, eu percebo o quanto as pessoas estão entendendo desejo como demanda, carinho como carência. E aí eu faço sempre um paralelo que eu acho que a gente vive num tempo de canetas emagrecedoras e, assim como se quer pesar cada vez menos na balança, o que eu ouço no consultório é também o uso dessa palavra: “Eu não quero pesar na relação”. Então, eu não quero pesar, não quero dizer que eu fiquei chateado porque a gente combinou de sair na sexta-feira e se desmarcou. Não quero pesar e contar que a minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer e talvez por isso eu não estou aqui sendo uma pessoa tão paquerativa. É como se tanto o desejo, o interesse e o incômodo estivessem sendo lidos como peso. E a gente vive esse mito das relações leves, as relações de baixa manutenção. Só que não existe relação sem manutenção, sem peso, sem atrito.
PONDÉ
Então, brevemente, a impressão que dá é que a modernização nesse território deu errado.
CAROL
O que é dar certo, Pondé?
PONDÉ
O que eu quero dizer é: não está tão preparada para tudo.
CAROL
Exatamente. Eu acho que a modernização deu errado quando a gente traz a lógica da performance, do controle para dentro de algo que não é controlável. E acho que vale a pena a gente pensar o quanto a gente está vivendo em tempos de atrofia social. A gente está cada vez menos exposto, na vida, ao tempo social e mais ao tempo individual. Eu quero as compras, elas chegam em 10 minutos. Eu quero maratonar uma série, eu vejo de madrugada porque eu estou com insônia. O tempo do outro tem sido lido como desrespeito, quando na verdade é o tempo do outro. E eu percebo que a modernidade nos convoca a querer entender o outro e falar sobre a gente ao invés de nos abrir para a experiência. A gente tem que poder sentir mais e entender menos, experimentar mais e falar menos.